Entrevista com Sebastião da Cunha

Dom, 30 Nov, 2008

Entrevista com Sebastião da Cunha

Sebastião da Cunha é um dos três irmãos Cunha ainda envolvidos no plantel sénior do Belenenses (a par do Salvador e do André), e um dos doze irmãos Cunha, família que tanto deu ao Rugby azul desde há cerca de três décadas.

O site Belenenses Rugby, no âmbito das entrevistas com os jogadores do grupo de trabalho sénior, colocou algumas questões ao Sebastião, que respondeu alternando a boa disposição com a seriedade que os temas da actualidade nacional do Rugby exigem, nomeadamente no que diz rspeito à selecção nacional de Sevens, que disputa esta temporada do Mundial do Dubai (Março de 2009).

São as respostas às questões colocadas que transcrevemos seguidamente.

PERFIL

Nome: Sebastião da Cunha
Idade: 24 anos (Data de Nascimento: 03/10/1984)
Posição: 2ª/3ª linha
Altura: 1,93m
Peso: 98kg
Clubes: Belenenses
Internacionalizações: 17 (a confirmar)
Palmarés:
Campeão Nacional Sénior 2007/2008
Campeão Nacional de Sevens 2008
Campeão Europeu de Sevens FIRA 2008, 2006, 2004
Campeão Nacional Sénior 2002/2003
Vencedor da Supertaça ( 2003 e 2005)
Internacional pela equipa nacional de Sevens
Internacional pela equipa nacional de XV

ENTREVISTA

Site: Olá Sebastião. Queria começar por pedir para te apresentares aos leitores do site.

Sebastião: Olá. Sou o Sebastião da Cunha, sou o décimo de doze irmãos, vivo em Caxias e estou a acabar o curso de gestão no ISEG. O meu clube de futebol é o Benfica e tenho como prato preferido uma Dourada fresquinha.

Site: Quando e porque é que começaste a jogar Rugby no Belenenses?

Sebastião: Entrei para o Rugby no segundo ano de Benjamin porque gostava de ver os meus irmãos jogar e achava que o rugby era para homens muito fortes e intocáveis (era isso o que eu queria ser). Escolhi o Belém porque os meus irmãos jogavam todos lá.

Site: De que forma encaras o facto de seres um dos irmãos Cunha do Rugby do Belenenses? Como um fardo (devido ao peso da tradição) ou como uma fonte de motivação? Suponho que te orgulhes…

Sebastião: Sempre que saio à rua e vejo alguém mais velho a olhar para mim, durante mais de dois segundos, penso que são amigos dos meus irmãos. Normalmente dizem “este é Cunha!”.

Como tenho muito orgulho na família que tenho, tento elevar ao máximo a minha performance dentro de campo. Neste contexto a tradição, para mim, é uma grande fonte de motivação.

Assim quando se cruzarem comigo outra vez dizem “este Cunha até nem joga mal”, o ego cresce.

Site: Relativamente ao teu percurso na equipa sénior do Belenenses, é um dos jogadores mais polivalentes da equipa… Jogas a 2ª linha, 3ª linha (flanqueador e até já jogaste a oito) e ponta. Que posição acreditas ser aquela em que podes produzir mais?

Sebastião: O ano passado joguei a fase regular toda a segunda linha. O ano anterior também. Um segunda linha internacional tem em média 115kg (ainda me falta muito para lá chegar). Ou seja, posso jogar e cumprir os papéis de 2ª linha a nível nacional mas fisicamente isso não me é possível internacionalmente. A minha posição é sem dúvida 6 e é, de facto, onde me sinto melhor e onde acho que posso ajudar mais a equipa.

Ponta nem vê-lo. Quando joguei o David nunca me passou a bola…

Site: Que jogadores te marcaram mais, dentro e fora do Belenenses, em Portugal ou no estrangeiro?

Sebastião: Dentro do Belém foram sem dúvida os meus irmãos que vi jogar: António, André, Francisco e Salvador. O António porque jogava com ele não só no Belém mas também na selecção, era um óptimo capitão. Fazia o chamado tribunal - só visto. Com o André, considerado por muitos o melhor dos irmãos, nunca joguei nos seus tempos áureos mas ia ver os jogos e ficava todo contente com a “pica” que ele tinha. Agora está de volta e as outras equipas que se “ponham a pau”. O Francisco de vez em quando deixava cair a bola mas quando a agarrava ninguém o parava. Punha a malta toda a rir. O Salvador ainda joga comigo e anda a partir loiça.

Para além dos meus irmãos gosto muito da 3ª linha do Belém (Valter, Uva, Nandes), o meu amigo Facundo, Nifinho e Banana, Mateus (os dois), e lá atrás a paz de alma do Mirra que nunca criticou ninguém. Uma palavra de apreço para o meu padrinho da selecção Lourenço Rebelo de Andrade que me ensinou a saltar na “Lineout”.

Fora do Belém: Paulo Murinello e Portela.

Internacionalmente falando adoro o Bryan lima (Samoa), Victor Matfield (África do Sul), Christian Cullen (Nova Zelândia), o grande Serevi (Fiji) entres outros.

Site: Esta temporada será muito longa, e cheia de provas. Pelo Belenenses disputarás a Divisão de Honra, a Taça de Portugal e a Taça Ibérica. É ainda previsível que jogues pelas selecções de XV e de Sevens, sendo que no caso da equipa de Sevens há um Mundial em 2009… Eu sei que ainda não estás convocado, e que a luta por um lugar será grande, mas gostarias de participar no Mundial do Dubai? Que expectativas para a participação portuguesa?

Sebastião: Claro que gostava! Nunca fui a nenhum mundial e adoro Sevens. Melhor motivação não podia ter! Penso que o objectivo deveria ser melhorar a prestação do mundial de Hong Kong - que foi brilhante (10º lugar!). Não vai ser nada fácil.

Site: E relativamente às outras provas? O que pode fazer a equipa principal do Belenenses esta época?

Sebastião: Uma característica que o Belém tem é entrar sempre para ganhar. Como pertenço ao clube só posso acreditar em vitórias. É certo que temos muita malta na selecção e que por vezes se magoa devido ao excesso de treinos (um ano ganhamos todos os jogos da fase regular e na final four nem um! Perdemos sete jogadores titulares, por lesão, ao serviço da selecção) mas isso tem que jogar a nosso favor - os jogadores ficam mais experientes.

Site: Muita gente diz que és um jogador de elevado potencial, mas que ainda tem muito para evoluir. Que departamentos do jogo acreditas serem aqueles em que podes melhorar consideravelmente?

Sebastião: “Mas, mas, mas” eu, por exemplo, nunca fiz um “avant”. Pronto, uma vez falhei um “drop” - tenho que treinar mais…

Site: Voltando ao tema dos Sevens, achas que o facto de seres regular participante no Circuito da IRB te ajuda a melhorar a tua prestação no Rugby de XV?

Sebastião: Sem dúvida alguma. Nos torneios da IRB não só se joga contra os melhores do mundo como se vê os melhores do mundo a jogarem entre eles. Quanto mais rugby se vê mais se sabe.

O rugby de sete é um poço de criatividade. Existe sempre solução. A actual crise financeira devia ir ao estádio… (risos)

Depois está-se sempre a ser testado. Se falhas uma placagem é ensaio - “culpa tua”. Se falhas um passe é ensaio da outra equipa - “culpa tua”. Quanto maior for a técnica individual menos culpa no cartório e melhor jogador és! Logo, sempre que jogas sevens aperfeiçoas a tua técnica individual (e colectiva) que pode e deve ser aplicada no XV.

Site: Uma das imagens de marca do Belenenses é a mobilidade do seu pack avançado, que é leve e “mais pequeno” que os adversários, mas mais mexido e rápido. Concordas com a ideia de que isso nos diferencia relativamente a outras equipas da Divisão de Honra? Como descreverias o estilo de jogo do Belenenses?

Sebastião: Para responder a esta pergunta cito um dito popular “mais vale pequeno e brincalhão do que grande e trapalhão!”. O estilo de jogo do Belém vive do total e completo anarquismo. Não obstante, esta maneira de jogar, leva à plena diversão por parte de quem o pratica!

Site: Sebastião, obrigado pelas tuas respostas. Um grande abraço e felicidades.

Sebastião: Obrigado sou eu! Abraços

(Fotografia: Gonçalo Tavares)

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